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92 mil documentos secretos sobre Guerra do Afeganistão vão parar na Rede

Pentágono investiga militar americano como principal suspeito de vazamento


Pentágono acredita que o analista militar Bradley Manning, de 22 anos, é o principal responsável pelo vazamento dos documentos

O Pentágono confirmou na quarta-feira, 28, que o analista da inteligência militar Bradley Manning é o principal suspeito de vazar 92 mil documentos secretos sobre a guerra no Afeganistão, como informa a CNN citando um funcionário do Departamento de Defesa.

De acordo com a fonte do canal americano, Manning, de 22 anos, teria acessado um sistema global militar altamente restrito para fazer o download dos documentos. O funcionário do Pentágono não quis se identificar alegando que a investigação ainda está em curso.

Para entrar no chamado Secret Internet Protocol Router Network, que teria sido invadido por Manning, e ter acesso a sistemas com material secreto específico são necessárias senhas e até comprovações físicas.

Em viagem ao Egito, o procurador-geral dos Estados Unidos, Eric Holder, disse também na quarta que as investigações determinarão se acusações criminais serão colocadas no caso. Segundo ele, o Departamento de Justiça trabalha com o Pentágono para determinar a fonte do vazamento de informação.


Revelações causaram polêmica nos Estados Unidos, Reino Unido, Paquistão e, principalmente claro, o Afeganistão.G1

- Eu deploro a divulgação de informação classificada. Realmente não é de interesse nacional dos EUA ter esse tipo de material vazado - afirmou Holder a jornalistas.

O fundador do site Wikileaks, Julian Assange, responsável pela divulgação dos papéis no fim de semana passado, se nega a revelar a identidade de sua fonte.

Da mesma forma que Holder, o general Josef Blotz, porta-voz da força internacional da Otan no Afeganistão (Isaf), condenou a divulgação dos documentos secretos. Em entrevista coletiva, ele afirmou ainda que o vazamento não terá nenhum impacto no comprometimento da missão com os governos de Cabul e Islamabad, reiterando o que já havia sido dito por Washington.

- Algumas das informações divulgadas são indicativas das razões que nos levaram a modificar nossa estratégia para fortalecer a relação com os parceiros afegãos e paquistaneses - disse Josef Blotz.

Na noite de terça-feira, o Congresso americano aprovou mais recursos para os conflitos no Afeganistão e no Iraque.


Julian Assange, fundador do site Wikileaks que divulgou os documentos sobre a guerra no Afeganistão. EFE

Site promete revelar mais dados secretos dos EUA sobre Afeganistão

Após a divulgação dos 92 mil documentos secretos, o fundador do site WikiLeaks, Julian Assange, prometeu ra que irá publicar mais 15 mil papeis contendo dados inéditos sobre o conflito.

O site Wikileaks, que divulgou os documentos, é uma espécie de Wikipedia de documentos vazados. Os papeis trariam inclusive evidências de crimes de guerra.

Em Londres, Assange disse aos jornalistas que o que já foi divulgado sobre o vazamento é "apenas o começo", e que cerca de 15 mil documentos ainda não foram publicados no site.

Ele disse ainda que "milhares" de ações americanas no Afeganistão poderiam ser investigadas devido a indícios de crimes de guerra, mas que as acusações teriam que ser comprovadas na Justiça.

Assange disse ainda que há evidências de acobertamento de mortes de civis, e apontou para um "suspeito" número alto de mortes que as forças dos EUA atribuem a balas perdidas.

Os documentos cobrem alguns aspectos conhecidos dos nove anos de conflito: operações das forças especiais dos EUA contra insurgentes sem julgamento, afegãos mortos por acidentes e a indignação de autoridades americanas devido à suposta cooperação do serviço de inteligência paquistanês com grupos insurgentes que atuam no Afeganistão.

Os papéis também descrevem incidentes desconhecidos anteriormente sobre mortos de civis e operações secretas contra líderes do Taleban.

Revelações

Entre as informações que vieram a público, os documentos afirmam que centenas de civis foram mortos sem conhecimento público e oficial pelas tropas de coalizão no Afeganistão, planos secretos para exterminar líderes extremistas do Taleban e Al Qaeda e a discussão do suposto envolvimento de Irã e Paquistão no apoio a insurgentes eram temas recorrentes aos líderes militares.

Os documentos informam que pelo menos 195 civis foram mortos e outros 174, feridos. O número, contudo, pode ser subestimado porque, em muitas missões, as tropas omitem esse tipo de acontecimento.

Erros que ocasionaram morte de civis também incluem o dia em que soldados franceses bombardearam um ônibus cheio de crianças em 2008, matando 8. Uma ronda similar feita pelas tropas norte-americanas matou 15 passageiros.

Os documentos também apontam o extermínio de uma vila durante uma festa de casamento, incluindo uma mulher grávida, em um aparente ataque de vingança.

Os EUA também acobertaram que o Taleban adquiriu mísseis aéreos, e que escondeu um massacre perpetrado pelo grupo terrorista devido ao uso de bombas, que dizimaram mais de 2.000 civis até então.

As tropas no Afeganistão mantinham ainda uma unidade de "caçadores" para "matar ou capturar" líderes do Taleban sem julgamento.

Críticas

A Casa Branca, o Reino Unido e o Paquistão condenaram o vazamento dos documentos confidenciais, um dos maiores já registrados na história militar.

O assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, Jim Jones, disse que a divulgação "coloca as vidas de americanos e seus aliados em risco".

Em um comunicado, ele ressaltou que os documentos descrevem um período de janeiro de 2004 a dezembro de 2009, em grande parte durante o governo de George W. Bush. Jones lembrou que tal período é anterior ao anúncio de uma nova estratégia por Barack Obama.

O embaixador do Paquistão, Husain Haqqani, disse que os documentos "não refletem a atual realidade do conflito", no qual os EUA "buscam derrotar a Al Qaeda, o Taleban e seus aliados".

Reação afegã

O governo afegão disse estar "chocado" com a proporção do vazamento, mas afirmou que grande parte das informações "não são novas".

Em entrevista coletiva em Cabul, o principal porta-voz presidencial, Wahid Omar, disse que o presidente do país, Hamid Karzai, se mostrou "surpreso" pelos mais de 90 mil documentos que vazaram da organização Wikileaks, mas não por seu conteúdo, já que o governo afegão "reiterou sua preocupação há muito tempo" pelos assuntos abordados.

O governo expressou o desejo de que o vazamento sirva para "conscientizar ainda mais" as potências estrangeiras sobre dois problemas sobre os quais o país vem insistindo: a morte de civis e os refúgios de terroristas no Paquistão.

Sobre o papel desempenhado pela espionagem paquistanesa (ISI) na guerra afegã, Omar disse que desde 2006, quando aumentaram os ataques terroristas de grande envergadura, o governo do Afeganistão já avisou que o êxito militar no país dependia das áreas tribais paquistanesas.

"Os documentos vazados que lemos até agora nos ajudarão, esperamos, a entender o papel desses fenômenos na guerra do Afeganistão", concluiu o porta-voz.

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