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SAÚDE

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cultura

Língua é Cultura: Três dias em um hospital de Londres


Newham General Hospital foi o Hospital em que Shirley esteve internada

Shirley Nunes
shirleybraziliannews@hotmail.com
http://shirleynunes.wordpress.com

Hello everyone! How's life?

Trabalhando, namorando, estudando...? Espero que tudo esteja indo no seu devido caminho. Se por um acaso, tem dado coisas erradas na sua vida, respire fundo, conte até 10, peça paciência e tenha certeza que poderia ser pior.

Esta semana foi uma semana bem difícil para mim. Sei que pouco te interessa minha vida pessoal, mas como poucos me escrevem sobre fatos que acontecem com vocês mesmos, eu tomei essa liberdade. Afinal, moro em Londres e acredito que o melhor da vida são as trocas de experiência.

Lembram do cara que tentou me atacar no parque, faz mais de 1 mês e eu estava com uma amiga? Pois bem, essa semana a polícia me ligou para dar depoimento, só faltava o meu. Lá na polícia, descobri que o cara foi pego, o que foi uma surpresa. E o caso vai para a corte - a "Crown court", a corte que trata de crimes mais leves (ainda existem outras cortes, como a "County Court" e "High Court" para outros tipos de crime).

Ainda não tive aquele momento de ter que reconhecer o cara, mas a polícia disse bem assim: "se o visse, reconheceria?" e logo depois "tenho certeza que é o cara que vocês descrevem". Pensei que a polícia tinha visto em alguma camera CCTV, mas não foi assim. Eles simplesmente andaram pela área que fomos atacadas. Sem falar que houve mais dois casos parecidos na mesma área, com descrição parecida com a nossa, ou seja, o cara pediu para ser pego.

Após aquele ataque, pensei que a polícia ligava, psicóloga ligava e carta chegava como uma forma de consolo sabe? Tipo assim, estamos sabendo do caso e damos impotância a você, por isso ligamos e mandamos essa carta. Ao menos eles estavam sendo sinceros quando pareceram se preocupar com nossa queixa, mesmo tendo tantos casos todos os dias.

Para finalizar, ele me disse que está trabalhando 20 dias consecutivos, e que estão todos assim, com quatro horas de sono em casa, e depois voltam para o trabalho. Realmente esse momento deve estar sendo difíceis para eles.

No mesmo dia...

No mesmo dia comecei a sentir dores mais fortes no meu abdomen e adivinha onde fui parar? Passei dias no hospital, com pessoas estranhas, dormindo sozinha. Alguém já passou por isso aqui? Para quem já passou, sinto muito, e para quem não passou vou falar um pouco da minha experiência, para desmestificar um pouco a idéia que temos dos hospitais daqui. Ou melhor, deixar uma idéia a mais, para pensarem, afinal cada um tem experiência diferente.

Já no Brasil descobri que tinha um gallstone (pedra na vesícula), mas foi exatamente 24 horas antes da minha passagem para cá. Então vim para cá, sabendo que teria que operar aqui.

Assim começa as informações importantes para você que mora aqui. O primeiro passo quando se passa por situação parecida é ir no GP (General Practice) para receber o atendimento de saúde. Se você não é cadastrado, se cadastre, deve ter um postinho no seu bairro ou região. É muito fácil, basta levar comprovante de residência, e provar que o visto é no mínimo de 6 meses.

Bem, como esperava, fui atendida pelo clínico geral que me enrolou mais de 1 mês fazendo tratamento de gastrite que de fato tenho, para depois fazer meu pedido, dar uma guia para o especialista para operar. Ele tinha o meu exame de ultrassonagrafia do Brasil e a tradução, mas mesmo assim me pediu outra ultrassonografia. Enquanto isso, a pedra aumentou 0.5. Se não fosse isso, ele ia me enrolar mais um mês com aquele argumento: primeiro trata a gastrite. Ou seja: esta história de que enrolam você no clínico geral aqui é verdadeira. Por isso você tem que bater o pé, de frente, pedir, ser chata como eu fui. A frase dele foi bem assim: "enquanto eu não te marcar, você não vai sossegar, né? Mas primeiro tem que fazer exame de ultrassonografia". Assim com segundo exame na mão, fui parar no especialista.

No especialista, descobri que só tem uma forma de operar e, acreditem, desisti porque era cortando e era necessário tirar toda a vesícula. No Brasil, eles tiram só a pedra e se tiver muito infeccionada, tira a vesícula toda. Após uma semana, senti uma dor nas costas que parecia gás escondido em algum lugar. No outro dia, o que pareciam gases, estava virando uma cólica bem forte. Mesmo ouvindo coisas horríveis sobre hospitais daqui e como tratam, eu não tinha outra saída. Era melhor do que ficar em casa.


Quando a dor é muito grande, melhor correr pras emergências dos hospitais.

No hospital

Fui para o Newham University Hospital, diretamente na recepção de emergência. Agora posso dizer, por experiência própria como é o tratamento no hospital. A minha sorte, era meu marido do lado para me levar e também falar por mim, porque eu mal conseguia. Na recepção atenderam logo, mas para chamar lá dentro foi após 30 minutos. Estava esperando sentada, melhor debruçada no colo do meu marido quando a moça chamou. Ela confirmou informações pessoais, perguntou o que eu sentia e depois mediu a pressão, lógico que estava baixa, e assim me colocaram numa maca para dar soro. E depois veio dois médicos- residentes me fazendo várias perguntas. A enfermeira me deu mais soro ou outro remédio que não sei qual é, certamente para dor. Já 3 horas no hospital, fizeram ultrassom e viram que de fato a pedra estava ali na vesícula mas ela não estava causando nada e, de acordo com os médicos, o local da dor era improvável ser da vesícula. Assim pediram exame de urina, e como eu imaginara, deu positivo.

Fizeram pela segunda vez outro ultrasom e eu fui para um local chamado "Clinic Decision", onde mais quatro pessoas estavam em camas deitadas.

Já fazia 6 horas que eu estava no hospital, mais dois médicos foram me ver, e chegaram a conclusão que certamente era infecção urinária que foi para o rim. Aquela dor não passava e, a cada movimento e respiração eu sentia cólica. No final de três dias, descobri que me deram paracetamol, diclofenaco e amoxilina. Posso ser uma ignorante, mas sinceramente são remédios muito fracos.

De qualquer forma, eu fui bem atendida, me deram atenção. Passei dois dias tomando remédio na veia e não senti melhora. Embora entendia que leva um tempo para o corpo reagir. Nesses dias, eu estava em um quarto no meio de mais cinco senhoras, todas com dores, e havia 2 infermeiras a cada noite, com troca de turno de manhã e no fim da tarde. Eu podia chamá-las através de um botão do lado da cama.

Poxa, a cama... isso era bom! Cheio de botões, eu mesma a movia como queria. Ainda bem porque com a dor que eu estava, só eu para saber a melhor posição.

Outra coisa interessante era o café da manhã, almoço e janta que eu escolhia em um cardápio antes, todos os dias. Mas se eu pedisse qualquer coisa para comer porque estava com fome naquela hora, eles traziam. De madrugada senti muita dor, as enfermeiras sempre estavam ali, e viram que não parava de sentir dor, me deram até morfina. Para isso, certamente elas tem autorização. Teve uma enfermeira indiana que não vou esquecer, ela era a mais cuidadosa e atenciosa.

Para ir ao banheiro ou para tomar banho todos faziam sozinhas, a menos que pedisse ajuda. As visitas eram permitidas das 3pm até 8pm.

No terceiro dia, vomitei de manhã, acho que de tanto sentir o cheiro de remédio, e mão direita já inchada de tanto soro. Foi só no terceiro dia quando um quinto médico foi me ver, que ouvi uma explicação decente, no entanto. Isso porque era 9 da manhã e eu ainda me sentia mal, então resolvi reclamar bem nervosa: "estou com dores há dois dias, hoje é meu terceiro dia, vomitei, não quero comer nada porém estou com fome e ainda sinto dores. Quero saber o que está acontecendo". Ele era mais um residente mas foi o único que explicou detalhamente o que acontecia e questionou coisas que outros médicos não perguntaram. Por volta de uma da tarde senti uma melhora tão grande que o médico me autorizou vir pra casa, contato que eu não parasse o tratamento e marcasse a cirurgia da vesícula logo.

Nunca gostei de médico, sempre desconfio deles porque a impressão que eu tenho é que eles chutam, sabe? Também não gosto de remédios, sempre acho que eles curam algo e causam outra coisa.Mas algo é certo: aqui em Newham o tratamento ao paciente é bom, eles tentam fazer o melhor. A rotina não é nada fácil. Não posso falar de outros hospitais mas acredito que se as refeições são regulares, existe uma enfermeira por perto, o médico te visita e fazem exames, você pode ficar tranquilo.

E, em qualquer lugar, não tenha medo de ser chato, pergunte o que estão te dando, fale tudo o que sente, chore... enfim, qualquer coisa quando ver que não melhora, só não dá para ficar calado.

E gente, orem por mim porque a coisa está preta. Tenham uma ótima semana!!!

 
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