Desafiando
a recessão com estilo
Semana da moda de Londres fica mais popular, com desfiles enxutos e transmissão on-line

Novos nomes sempre trazem criatividade à semana de moda Londrina.
Márcio Rodrigo Delgado*
Especial Brazilian News
Quem foi a London Fashion Week, realizada de 19 a 24 de fevereiro, não precisou de mapa para achar os locais onde mais de 50 desfiles e centenas de outros profissionais da moda escolheram para mostrar as novas tendências outono e inverno.
Muito antes de chegar à tenda armada no pátio da Somerset House, no centro de Londres, já era possível ver gente sinalizando o caminho do evento, seja com um penteado estravagante, uma maquiagem pesada, figurinos atípicos e sapatos que pareciam ter sido emprestados por algum personagem de história em quadrinhos dos anos 60. Nada muito comum de se ver em uma manhã de sexta-feira.
Com tantos talentos – e curiosos – querendo tirar uma casquinha da semana de moda de Londres, os desfiles e exibições são divididos e acontecem simultaneamente em diferentes endereços.

Charlie Le Mindu apresentou suas criações no primeiro dia do evento, com modelos cheias de crucifix e penteados exóticos.
Há a série de grandes nomes da moda que dividem a passarela montada na Somerset House, próximo a estação de Temple. Há os novos designers, na Victoria House, em Holborn, mostrando que sangue novo sempre traz algo interessante aos olhos.
E foi justamente por onde comecei no meu primeiro dia de cobertura, pelos desfiles menores, fora do palco principal.
Estes desfiles, paralelos à programação oficial, são geralmente mais criativos e ousados porque quem criou toda a alegoria está mais preocupado em mostrar inovação e atitude, deixando para segundo plano o interesse comercial que passa a fazer parte do processo criativo dos grandes estilistas. É uma comparação injusta se levarmos em consideração que um estudante recém-formado não tem a mesma responsabilidade com a folha de pagamento de um Paul Smith ou Vivienne Westwood, que também gastam fortunas com aluguéis de ateliers em pontos estratégicos da cidade. Mas quem se interessa por esses números?

Uma das criações do estilista turco Bora Aksu.
Apesar do sol, foi mesmo a chuva que marcou a abertura do evento.
E quando o assunto é água, nem sempre se encontra a melhor saída para lidar com o tempo. Do lado de fora da Victoria House, por exemplo, duas moças com enormes sombrinhas recepcionavam os convidados às 10 da manhã.
Se fosse na entrega do Oscar, talvez elas fossem mais ágeis e usassem as sombrinhas para ajudar as pessoas descer dos carros ou correndo da chuva a se molharem um pouco menos. Mas na Victoria House elas não fizeram nada mais do que decorar a porta.
Entre os desfiles interessantes do dia, Charlie Le Mindu roubou a cena com suas modelos em preto, crucifixo cintilante e perucas enormes na passarela. Le Mindu, que já teve algumas de suas criações chacoalhando na cabeça da cantora Lady Gaga, levou cerca de um mês para confeccionar cada uma das perucas que fizeram parte do seu show no primeiro dia da London Fashion Week.
Aos poucos o dia foi melhorando.
Parou de chover e os lugares e as coleções foram ficando cada vez mais mais interessantes. Sentei na segunda fila do desfile do estilista turco Bora Aksu, que há 14 anos mora em Londres e este ano mostrou uma quantidade razoável de roupas que podem facilmente ganhar as ruas (e o gosto) do público femininino.
Abusando de tons pasties, como crème e salmão, contrastando com preto e alguns recursos de efeito - como a blusa que lembra papel crepom amassado – Aksu acertou também na trilha Sonora, algo entre pop e tecno sem as batidas violentas de DJ’s daquelas festas onde ninguém sabe o que está tocando.
Em pé mesmo
Mas nem tudo foi fácil. Com gente do calibre de Phillip Green, proprietário do grupo que inclui a Top Shop, e Sarah Brown, esposa do primeiro ministro Gordon Brown, enfeitando as primeiras filas do evento – além de um exército de colunistas para blogs de existência duvidosa - foi difícil garantir um lugar para assistir os desfiles, mesmo com convite na mão, credencial de imprensa e lábia.
-Darling, este SD que tem impresso aqui, no cantinho do ingresso enviado para a sua casa, quer dizer ‘standard’ ou ‘standing up’. Pode ficar ali perto da saída dos modelos.
- Onde?
- Ali, perto da parede, mas não senta não, ok? – a organizadora do desfile da dupla Aminaka Wilmont explicou, com cara de poucos amigos mas um real esforço para parecer útil.
Eu não sei porque todo mundo que trabalha no meio da moda chama os outros de ‘darling!’, mesmo quem nem conhece.
Antigamente, darling era algo especial para mim, ‘querido’ na tradução literal da palavra. Após quatro anos cobrindo as passarelas pelo mundo afora, darling virou uma expressão que soa mais como um xingamento do que cumprimento. E lá fui eu – e mais outros 30 jornalistas e assessores de imprensa – para o corredor estreito entre a parede e os assentos.
Durante os dias que viriam a seguir foi fácil constatar que a moda muda, mas há algumas coisas que permanecem do mesmo jeito. Como a aglomeração nos bastidores. Se tem um local em eventos de moda que está sempre cheio é o banheiro e a sala de imprensa. No caso dos banheiros, há chances de que, mais cedo ou mais tarde, a sua vez vai chegar. O mesmo não se pode dizer das áreas especialmente dedicadas ao público VIP e a quem cobre o evento porque elas estão sempre cheias.
-Assim que sair alguém, é a sua vez. Estamos superlotados! – garantiu a recepcionista de um lounge voltado para a mídia, do lado de fora da passarela principal.
Não que tivesse muitas celebridades confinadas lá dentro, disfarçadas com óculos escuros e uma parede de guarda-costas. Provavelmente o interesse maior era mesmo pelo ‘comes e bebes’ ou brindes que os patrocinadores sempre enviam para estes locais específicos.

Público aproveitou para mostrar seu próprio estilo.
Reles Mortais
Para quem não conseguiu ir aos desfiles e não viu a transmissão on-line, ainda há uma chance de aproveitar um pouquinho da semana de moda de Londres com a continuação mais popular do evento, o London Fashion Weekend, que acontece no mesmo local por onde desfilaram as grandes grifes.
Mais de 100 designers estarão disputando a atenção de compradores com ofertas que podem chegar a 75% de desconto e para ter acesso não é preciso ser jornalista, amigo de estilista, trabalhar como maquiador ou pular o muro da Somerset House. Bata comprar um ingresso que custa entre £12.50 (apenas acesso) à £34.50 para quem quiser ter acesso em um dia do evento e ainda assistir aos desfiles.
Vale lembrar que quem for menor do que 18 anos vai ter que deixar o evento para outra vez ou ir acompanhado de um adulto. Mas não vale juntar toda a turma do colégio e convidar aquela sua tia super moderna para acompanhar o grupo porque há um limite máximo de dois menores de idade por adulto.
Quer saber mais e garantir o seu? Acesse www.londonfashionweekend.co.uk.
Como o próprio nome já entrega, o evento acontece durante o fim de semana. Corre que ainda pode dar tempo, já que as passarelas seguem borbulhando de 25 à 28 de fevereiro.
*Márcio Rodrigo Delgado é jornalista, professional de Marketing e atualmente reside em Londres, de onde cobre eventos como correspondente internacional para as revistas brasileiras Foco e Aimé, além de escrever um blog ‘quase’ diário. www.marciodelgado.com
Vai um espumante?
Pode até ser que você não tenha em casa uma bolsa ou chapéu da irlandesa Orla Kiely. Mas pelo menos o chocolate, em caixas marrom com folhas coloridas e que leva o mesmo nome da estilista, é bem provável que você já tenha provado pelo menos uma vez na vida.
Misturando um pouco de arte cênica e uma boa dose de talento e sensibilidade, Kiely preparou dentro da semana de moda uma instalação dupla, claramente inspirada nos anos 60 e modelos elegantemente alternando entre um lado e outro dos cenários em movimentos do cotidiano, como pendurar um casaco, assistir televisão, sair de casa, sentar na sala e etc. Para acompanhar a mostra, canapés e vinho espumante regaram o dia.

Aberto ao público
Este ano quem não quis enfrentar fila ou não estava a trabalho teve a oportunidade de ver todo o evento em uma cobertura on-line em tempo real.
A idéia já é conhecida de alguns estilistas, como Louis Vuitton e e Dolce & Gabbana, que anteriormente já haviam usado a internet para divulgar seus trabalhos para uma audiência bem maior que o restrito mundo da moda.
A iniciativa colocou a semana de moda de Londres ao acesso de qualquer mero mortal, mais perto de quem consome (e paga) pela indústria da moda e não apenas a quem trabalha no meio da alta costura.
Enquanto isso nos bastidores…

Mural e minuto de silêncio
O estilista inglês Alexander McQueen, que cometeu suicídio em Londres aos 40 anos, apenas uma semana antes da abertura da semana de moda, foi homenageado na abertura do evento com um minuto de silêncio e um mural de recados na área de desfiles exibidos na Somerset House. A maioria do público que usou o discreto espaço para deixar uma homenagem eram jovens, na faixa de 20 à 30 anos, como a estudante de fotografia Elizabeth Simms, que foi ao evento pela primera vez e lamentou a morte de McQueen com uma notinha deixada com a mensagem ‘vamos sentir a sua falta’.
Lee Alexander McQueen, que veio da classe operária, havia passado pela Givenchy e Gucci, antes de criar a sua própria marca.

Pacote de celebridades
Um dos dias da semana de moda com mais celebridades sentadas na primeira fila para conferir as tendências outono/inverno foi mesmo a terça-feira, 23.
Que o diga a Burberry, por exemplo, que apesar de ter como garota propaganda a atriz Emma Watson, da série Harry Potter, acabou atraindo a protagonista de outro filme teen: Kristen Stewart, da saga vampiresca Crepúsculo (Twilight), que dividiu a atenção de público e fotográfos com as atrizes Mary-Kate Olsen, Kate Hudson e Claire Danes.
A veterena modelo Twiggy, sucesso dos anos 60, e Erin Oconnor, também atenderam ao desfile da grief inglesa na Somerset House.
Mas com um evento que durou tantos dias, de vez em quando uma celebridade deu o ar da graça em um desfile ou outro, como a cantor Americana Janet Jackson, que sentou na primeira fila do desfile de Todd Lynn, estilista da ala pop rock e que conta, entre seus clientes, com Mick Jagger, do Rolling Stones e do irlandês Bono, da banda U2. Abusando das cores bege e caramel, Lynn trouxe para a passarela uma coleção com detalhes nos ombros e muitas golas altas, além de peças em couro com ar heróis em quadrinhos e mostrando porque ele se mantém em alta entre as estrelas do show biz.
Com o BAFTA, uma versão inglesa do Oscar, ocorrendo no domingo bem próximo ao local da semana de moda, não foi de se estranhar ver estrelas pulando de um evento para outro para aproveitar um pouco de cada, afinal, a moda e a indústria cinematográfica andam de mãos dadas.
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