Olhar o
Brasil de fora

Zé do Pedal e seu kart prontinho para fazer a viagem de volta: de avião.
Rodolfo Torres
rodolfot@braziliannews.uk.com
Estive recentemente em Buenos Aires para uma rápida visita. Nada de compromisso de trabalho, apenas turismo desinteressado e eventual para aproveitar a oportunidade de um apartamento amigo na capital portenha. Além das maravilhas daquele país, o que mais me chamou a atenção foi o Brasil visto de fora.
Ora, escrevo para brasileiros que estão no Reino Unido e saberão me compreender muito bem. Como o Brasil ganha dimensões, cores e potencialidades distintas quando estamos em outras terras... Parece que falta apenas um ingrediente para tudo mudar: nós mesmos; e finalmente fazer com que esse país predestinado a ser algo muito maior do que é finalmente venha a sê-lo.
A saudade do Brasil é algo dilacerante. Lembro que certa vez estava num Hostel em Toronto conversando com pessoas das mais variadas nacionalidades. Naquela época, para acalmar o coração, só ouvia Cartola e lia compulsivamente um livro de Nelson Rodrigues. Lá pelas tantas, o rumo da conversa veio para esses lados e após falar um pouco desse chão, eu simplesmente disse que gostava do Brasil. Uma japonesa me interrompeu para fazer uma correção: "Você ama o Brasil".

Pois é... Amo o Brasil e o critico diariamente. E bastou uma entrevista do Roberto DaMatta para a Marília Gabriela, num domingo à noite, para tirar uma culpa ancestral que tenho. Esclareceu o expoente maior de nossa antropologia que, ao contrário do que nos foi ensinado, a discórdia não é falta de educação. Ao contrário, é peça fundamental para algo que se chama por aí de democracia. Ou seja, posso discordar de alguém sem que com isso o esteja desrespeitando.
E isso não é algo estimulado por essas bandas. Quer um exemplo bastante comum nos eventos esportivos? Enquanto todos comemoram um campeonato, teimo em lembrar da qualidade de nossa educação e de nossa carga tributária astronômica. Não nessa ordem. E não consigo ficar feliz. Há quem diga que sou o "do contra". O nosso vôlei, por exemplo, venceu a Rússia e ganhou a Liga Mundial pela nona vez. Passamos da Itália, que tem oito campeonatos. Viva!

DaMatta, que lecionou na Universidade Harvard, também reforçou que, no Brasil, a meritocracia funciona muito bem no futebol: algo com regras simples, claras e que dá oportunidades reais aos pobres. Que o Rio de Janeiro ainda tem muito da corte portuguesa que desembarcou por lá em 1808. Que o presidente Lula é a culpa encarnada do Brasil por não fornecer condições de vida dignas aos seus.
E o que dá para extrair dessa conversa toda é a resposta que o antropólogo deu à apresentadora quando questionado sobre educação e segurança no Brasil: "Estamos perdendo tempo".
Para aliviar um pouco a conversa, fiquem com a capa de um jornal argentino mostrando os espanhóis, campeões mundiais de futebol, com os seguintes dizeres: "Desemprego, criminalidade, crise econômica, submissão ao FMI, glórias desportivas... Bem vinda ao terceiro mundo, Espanha".
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