Dilma e o nosso tempo

A presidente Dilma pode não ser boa de discurso mas deve ter algum carisma para ter vencido a eleição. Antonio Cruz/ABr
Rodolfo Torres
rodolfo.brasilia@gmail.com
A presidente Dilma Rousseff não consegue empolgar como oradora? Mas, talvez, o pessoal esteja pegando demais no pé dela ao sair por aí dizendo que ela não consegue juntar cacos de pensamento para formar uma ideia clara numa frase.
Tá certo que nunca tivemos um Churchill no Planalto, mas convém lembrar que os tempos são outros. Menos exigentes em alguns aspectos, e muito mais cruéis em tantos outros. Se antes a política era uma atividade até certo ponto passional; hoje ela está árida, tecnicista, sem a menor capacidade de empolgar.
Daí temos Dilma Rousseff como presidente da República. Uma mulher que ficou conhecida por seu perfil técnico, sisudo. A mulher que cobra resultados... E que luta para tentar convencer o país de que tem estrela própria diante de caciques petistas.
Escreveu Celso Arnaldo de Araújo no Blog de Augusto Nunes: "Se apenas não possuísse o dom da palavra, a presidente Dilma estaria plenamente absolvida. Teria certamente seus bons momentos, como todos têm. Mas ela nunca teve nenhum, pelo menos em público. Nunca lhe ouvi uma frase inteligente, um raciocínio límpido, um jogo de palavras com sentido lógico e algum requinte metafórico, um recurso dialético, um cacoete de estadista, um pensamento superior sobre o Brasil e suas mazelas".
Eu até queria concordar com ele. Mas devo prestar solidariedade à nossa presidente. Existe um abismo entre a exigência e a realidade. Não queria lembrar, mas foi-se o tempo em que se votava pelo gogó do candidato. Hoje, temos o marketing e todo circo que faz com que uma executiva vença uma disputa presidencial sem nunca ter se candidato a qualquer cargo eletivo anteriormente.
Em outros tempos, diria que Dilma é isso ou aquilo. Que ela representa, e muito bem, nosso tempo de poucas palavras, de pouco recheio, de pouco tempero em nossas vidas. Diria um monte de coisas...
Mas daí vejo como ela se esforça, por meio de ações, para mostrar que tem um naco de independência em relação ao seu próprio partido; e começo a ficar solidário com nossa líder.
Sua aproximação fraternal com o ex-presidente oposicionista, sua tentativa de vender uma imagem de "faxina" na Esplanada, sua falta de pudor para mostrar que não tem paciência para um monte de coisas chatas do cargo (algo do tipo: receber parlamentares e ministros do terceiro escalão) são tocantes.
Se ela não consegue se expressar bem, ao menos deve ter um carisma enigmático, capaz de conquistar milhões de eleitores brasileiros (segundo as urnas eletrônicas). A oposição, cara presidente, vai continuar pegando no seu pé. Mas não é nada para se preocupar. Nesse ponto, estou solidário contigo. Afinal, não é todo mundo que nasceu para falar em público, para ser simpático, para empolgar multidões. Faça seu trabalho e estará tudo de bom tamanho. A senhora tem a minha solidariedade.
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