Homens: cuidado com o ácido úrico

Samanta Gobbo Fedrizzi
safedrizzi@hotmail.com
Bióloga, mestrado em Fisiologia pela UNICAMP e doutorado em Ciências pela USP.
A doença responsável por essa dor insuportável chama-se Gota, um problema caracterizado pelo aumento de ácido úrico no organismo.
A formação do ácido úrico provém do metabolismo das purinas (proteínas). As purinas fazem parte dos nucleotídeos (subunidades dos ácidos nucléicos-DNA ou RNA), e também podem ser obtidas através da alimentação. O produto final da degradação de purinas é geralmente excretado na forma de ácido úrico.
A formação do ácido úrico depende da ação de uma enzima, chamada de xantina. Depois de produzido, o ácido úrico viaja pelo sangue até alcançar os rins. Nos rins, ele é filtrado e segue para a bexiga, de onde será excretado pela urina. Quando os rins não conseguem expulsar o excesso de ácido úrico, ele retorna a circulação, permanecendo no sangue.
O aumento dos níveis de ácido úrico no sangue pode ser devido ou à redução da excreção ou a um aumento do ritmo da síntese. Em ambos os casos, a elevação dos níveis de ácido úrico no líquido extracelular promove a deposição de cristais de urato de sódio nas articulações, e quando se acumulam debaixo da pele formam edemas, conhecidos como tofo gotoso, nas orelhas, nos cotovelos ou nos dedos. Há uma reação inflamatória local que produz dores intensas.
É importante saber que nem todas as pessoas que estiverem com a taxa de ácido úrico elevada (hiperucemia) serão portadoras de gota (somente 20% dos hiperucêmicos desenvolverão a doença). A maioria dos portadores de gota é composta por homens adultos.
Antigamente era conhecida como doença dos reis, pois os homens apreciavam carne de caça e gostavam de beber muito vinho. Esse é o perfil característico: homem com mais de 40 anos, obeso, que adora churrasco acompanhado de cerveja ou uísque, quase sedentário, pois de vez em quando bate uma partida de futebol.
Na maioria das vezes, o primeiro sintoma é um inchaço do dedo grande do pé acompanhado de dor forte. A primeira crise pode durar de três a dez dias, e após este período o paciente volta a levar uma vida normal, o que geralmente faz com que ele não procure ajuda médica imediata.
Uma nova crise pode surgir em meses ou anos e comprometer a mesma ou outras articulações. Sem tratamento, o intervalo entre as crises tende a diminuir e a intensidade a aumentar.
Só é possível fazer o diagnóstico de gota na primeira crise se forem encontrados cristais de ácido úrico no líquido aspirado da articulação. Caso contrário, não é possível definir o diagnóstico antes de descartar outras causas possíveis. Se a taxa de ácido úrico estiver normal durante a crise, mas mesmo assim, houver suspeita do desenvolvimento da doença, o médico deverá indicar uma nova dosagem dentro de duas semanas. Um exame de raio-X pode ajudar a definir o quadro.
Não há cura definitiva para a gota, já que a maioria dos casos acontece devido às falhas na eliminação ou na produção do ácido úrico. O tratamento da gota tem como base medicamentos que ajudam a normalizar a dosagem de ácido úrico circulante e a controlar a inflamação desencadeada pelo acúmulo de seus cristais. Uma dieta equilibrada ajuda na luta contra esse problema, embora 20% da produção de ácido úrico seja proveniente da alimentação. Assim, não precisa banir a carne vermelha do cardápio. Quem já teve uma crise de gota e muda a dieta, tende a não repetir essa experiência.
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