Brasileiros em Londres: sonhos e conquistas
Seja através da realização profissional, da obtenção de graduação ou título; ou ainda, de viver uma paixão, ou constituir família, todos sonham em alcançar a felicidade. Para realizar isso, vale tudo, até mesmo abrir mão do conforto de sua casa, de um razoável emprego, família, amigos e sua própria língua

Por: Janaina Guliato
Em reportagem publicada na semana passada pelo Brazilian News, a BBC/Brasil mostrou como os brasileiros continuam deixando o país, em busca de uma vida melhor no exterior, em quase três décadas após o início da "diáspora". Desde 1980, registros dos aeroportos sugerem que o Brasil tem perdido mais pessoas do que recebido. O movimento chegou a ter uma pausa entre 2001 e 2004, mas, a partir de 2005, o êxodo retomou sua força.
O Reino Unido, com uma economia fortalecida na última década, vem atraindo cada vez mais imigrantes brasileiros, ao mesmo tempo em que está dificultando a estadia de imigrantes de países que não pertencem a União Européia. Segundo informações do Consulado do Brasil em Londres, entraram em 2007 186 mil brasileiros, dentre os mais variados propósitos. A liderança dentre as categorias fica com o turismo, seguido pelo interesse cultural, estudo e trabalho. Independente da razão de cada um, esse número é crescente, apesar das regras para a entrada e permanência no país se tornarem cada vez mais rígidas.
Em Londres há 16 anos, Cláudia Goiatti, natural de Aracatuba (SP), lembra que quando chegou aqui tudo era diferente, especialmente a legislação. “A gente tinha mais acesso ao setor de imigração e podia recorrer sem muita pressão”, recorda-se.
Cláudia foi atraída pelas boas condições de vida e a oportunidade de falar um segundo idioma. Os planos eram ficar na Inglaterra por três anos, voltar para o Brasil e conseguir um bom emprego para garantir seu futuro.
Inicialmente como turista, num país desconhecido, sem falar nada em inglês, ela enfrentou muitas dificuldades. Estudava em três escolas para cumprir as 15 horas exigidas pela imigração, trabalhava como diarista e garçonete para dar conta das despesas. “Naquela época não havia muitas escolas preparadas para receber turistas, e as que tinham eram muito caras”, relembra.
Aos poucos a vida desta paulista foi se encaixando e tomando diferente rumos daqueles sonhados quando ela deixou o Brasil. Depois de oito meses em Londres, conheceu um egípcio, com quem foi morar passados dois meses.
O visto de turista tinha sido substituído pelo de estudante, mas quando este estava próximo de vencer foi quando Cláudia teve a maior decepção: entrou com o pedido de visto de noiva, o qual foi negado e ela, expulsa do país. “Foram dias intermináveis em minha vida. Não contava que isso poderia acontecer, eu não podia ir embora sem cumprir meu objetivo aqui”, desabafa.
Em menos de 30 dias buscou ajuda de advogados e encontrou uma solução, unindo o útil ao agradável. Ela se rendeu ao coração e se casaram, mas os problemas não acabaram por aí. Apesar de ter regularizado sua situação, ela ficou um ano sem poder sair de Londres, até que o visto permanente fosse emitido em seu passaporte. Somente três anos depois, recebeu definitivamente o passaporte britânico.
Hoje, completando 13 anos de casada, ela divide seu tempo entre o trabalho de assistente de restaurante, o marido, e o pequeno Adam, de três anos, principal motivo pelo qual ela não pensa em voltar para o Brasil. “Tenho uma vida feliz, conforto e segurança aqui, apesar de preferir ter conseguido tudo isso no Brasil. Aqui as pessoas são respeitadas em qualquer tipo de serviço que fazem, o quê não acontece no nosso país. Infelizmente o nosso governo não nos dá condições de prosperar, por isso decidi ficar aqui e garantir um bom futuro para meu filho”, conclui.
O destino também reservou muitas surpresas na vida do baiano Igor Dutra, um jovem que tinha um único propósito: desenvolver-se profissionalmente. Conquista atingida em Londres, após quase 15 anos de aspirações.
Tudo começou na faculdade de designer gráfico em Salvador, onde já desenvolvia trabalhos na área. Entretanto, não satisfeito com o mercado de trabalho no nordeste, decidiu transferir seu curso para São Paulo. Com a grande quantidade de serviço, trancou a faculdade no penúltimo ano. Três anos depois, voltou para a Bahia, onde abriu sua própria empresa, que não durou mais de dois anos.
Com a decepção, resolveu largar tudo no Brasil e partiu para o exterior. O destino foi o estado de Michigan, nos Estados Unidos, onde tinha alguns amigos. Em puco tempo, com muitos ideais e um espírito aventureiro ele já tinha conseguido se inserir no mercado de trabalho, mas ele queria mais.
Foi então que recebeu um convite para ir para Boston, no estado vizinho de Massachusetts, onde passou cinco meses. Foi quando em 11 de setembro de 2001, com o atentado ao World Trade Center os estrangeiros em geral começaram a ser excluídos da sociedade americana que passava por uma crise política, social e, consequentemente, econômica.
Igor não agüentou a pressão e, mais uma vez, arrumou suas malas e decidiu estudar francês na capital belga, Bruxelas. Como o campo profissional ainda não era o desejado, resolveu voltar para o Brasil.
Entre trabalho, férias e planos; decidiu que queria fazer um mestrado no exterior, mas para isso teria que terminar sua graduação. Retomou os estudos, mesmo período que desenvolveu projetos gráficos para os sites da Porsch e estabeleceu contato com a Organização das Nações Unidas, na Bélgica.
Não demorou muito para ele escolher o Reino Unido como destino final para a realização de seus planos. Devido à intimidade com o mundo virtual descobriu o já extinto programa Alban, cuja função era promover o intercâmbio entre estudantes da América Latina e Europa, através de bolsas de estudo. “Esse foi um período de muitos desafios, tive que fazer tudo sozinho, sem nenhum tipo de orientação. Precisei rapidamente escolher o curso, a faculdade, preencher dezenas de formulários, passar por um rígido processo, até ser aprovado”, lembra.
Viu parte dos seus sonhos se tornarem realidade na Escócia, onde fez o mestrado em Comércio Eletronico. Com o título de mestre nas mãos, Igor partiu para o mercado de trabalho e depois de muitas entrevistas descobriu que seu destino estava em Londres. Foi contratado por uma renomada agência publicitária, mas devido a instabilidades de ter que renovar contrato semanalmente decidiu buscar algo melhor, e conseguiu.
Hoje ele é funcionário efetivo de outra grande empresa de publicidade, comprou sua moto e constituiu família por aqui. “As dificuldades com certeza aparecem. Os obstáculos, como a diversidade cultural e o idioma, são superáveis. Aqui, ou em qualquer outro lugar do mundo, você chega onde quiser por si mesmo, com pensamento positivo, planejamento e determinação”, revela.
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